Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2004
REFLEXÕES À MARGEM DE O GRANDE ARCANO DO OCULTISMO REVELADO (DE ELIPHAS LEVI)

por Abdul Cadre frc







«O conjunto dos seres e das coisas existentes suporta e manifesta a divindade como o corpo físico do homem suporta e manifesta o Espírito»








PAPUS


 


Talvez se possa dizer ser excessiva a pretensão dos ocultistas, dos esoteristas e dos místicos em geral — entendo os primeiros como os práticos, os segundos como teóricos e os últimos como contemplativos — de deterem a chave de toda a Metafísica ou até de serem senhores de uma Metafísica própria, se é que é possível tal corte e apropriação. Todavia, chamando de espirutualistas (como simplificação) os que se preocupam com as relações Arquétipo/Macrocosmos/Microcosmos (ou o Divino, a Natureza e o Homem) e com as perguntas sacramentais «de onde, porquê e para onde», para os distinguir dos positivistas-materialistas, podemos dizer que os primeiros são movidos por um idealismo integral e os segundos por um vício analítico imediatista, pragmático. Como o que nos interessa neste momento é o campo que nomeámos de espiritualista, diríamos então que a sua metafísica se caracteriza por aquilo que Papus chamava de «Matese», isto é, a conciliação numa coisa só, o sincretismo ou integrismo dos três pressupostos da dialéctica: tese, antítese e síntese. Ora, pela perspectiva do homem — que outra não nos cabe em autenticidade, por fértil que seja a imaginação — ao sincretismo de tudo o que existe e não existe poderíamos chamar o Absoluto, donde tudo emana e onde tudo se conforma. Este centro de toda a periferia e desta periferia condição, é referido por Levi como o desconhecido e à sua personificação chamamos Deus. Pelo seu credo filosófico, Deus é a perfeita inteligência, a suprema bondade e o dever-ser da Filosofia, que o mesmo é dizer de todo o saber e da sua crítica, isto é, da reflexão sobre os métodos de aquisição, demonstração e valoração (quando ciência), de integração e vivência (quando religião) ou de acesso e transmissão (quando Tradição). Todavia — dizemos nós — falar-se de saber é quantificar e a verdadeira Filosofia tem por escopo a sabedoria, que é do reino da qualidade; filosofar é apenas o ónus do caminhante.


No reino da quantidade, depressa nos apercebemos que acontece com o saber o mesmo que acontece com o menino que sopra um balão, por mais que sopre e o encha, haverá sempre mais ar do lado de fora que do lado de dentro. Tentar inverter esta situação é o caminho que vai do inchaço ao rebentamento. Então, se Deus é o desconhecido — e poderíamos dizer Eterno Desconhecido — tentar percebê-Lo pela quantificação, mesmo que em termos de edificação moral, por mais diáfana, será sempre diminui-Lo, limitá-Lo e permanecer desconhecendo-O.


Fernando Pessoa tentou fugir a esta nossa insuficiência que disfarçamos, racionalizando e nomeando, através do seu credo, que em muitas referências literárias vem etiquetado de Credo Rosacruz:




«Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando-se até se chegar a um Ente Supremo, que presumidamente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não... (...) ... Dadas estas escala de seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, podemos ir comunicando com seres cada vez mais altos»


Podíamos acrescentar que estes dizeres têm por corolário outra concepção pessoana. Dizia ele: Jeová é o Homem de um Deus maior. Se analisarmos estas citações e concluirmos que isto é um caminho, ou que seria o caminho pessoano, teremos de nos lembrar do grande poeta ibérico António Machado, quando diz: «caminhante, não há caminho, o caminho faz-se ao andar», o que nos devolve a Levi, na sua concepção de que a ausência de vontade e de razão torna os indivíduos e as massas escravos da fatalidade, submetidos à ditadura do opinativo, que é ela que rege o mundo.


Acrescentaríamos nós que as massas ignaras não agem, reagem e não pensam, repetem as fórmulas que lhes parecem cómodas, de acordo com o condicionalismos a que foram sujeitas, o que nos leva a desembarcar nas praias de Gurdjieff, na sua teoria dos adormecidos e dos acordados e na sua proposta de «o homem astuto» Pensamos que os espiritualistas — ou pelo menos os espiritualistas que sabem a diferença entre o desejo e a vontade, entre a crença e a convicção — agem, fazem o seu caminho de pé-posto e buscam a sua auto-realização, o que exige o exercício da virtude, força dinamizadora e razão de ser de toda a acção e contraponto à passividade e submissão que as paixões acarretam. Acção virtuosa, ou acção pela virtude, que não se deve confundir com os vórtices da violência do mundo, onde aquilo que se chama acção não passa de agitação tão-somente, produzida pela cupidez e pela maldade à solta. É a submissão aos instintos e a raiva a produzir o envenenamento das ideias e a cegueira a permitir todas as imprudências.


Fôssemos nós animais e a natureza nutrir-nos-ia ou eliminar-nos-ia de acordo com as necessidades ecológicas do momento, mas o homem não está encurralado na vida, vive porque aprende e aprende porque vive. É isto que o obriga a produzir ciência. É a sua capacidade perceptiva, apurada pelo engenho e pela depuração, submetida ao crivo da inteligência que constrói a ciência, cuja eficácia, convenhamos, resulta de um conjunto de problemas que dão certo. Trata-se, na aprendizagem da vida no plano físico, do exercício da tentativa e erro, como quem vai limando arestas para obter uma esfera. É aqui que nasce o cuidado de sabermos que tudo isto assenta na convenção e termos presente as avisadas palavras de Nietzsche: «regemo-nos por fórmulas e leis que não têm base em coisa alguma de valor, salvo serem aceites». No entanto, o resultado é de uma enorme riqueza como construção mental e civilizacional. Deste sumptuoso edifício, dizia Einstein: que «toda a ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil e, apesar de tudo, é o que temos de mais valioso». Pois bem: aceitando o que se diz atrás, que a eficácia da ciência resulta de um conjunto de processos que dão certo, somos reconduzidos a Levi: trata-se de uma muleta e há ainda uma outra, a religião. O que parece certo é que, sem estas duas muletas ter-nos-íamos, eventualmente, perdido na barbárie dos nossos caminhos iludidos. O perigo para este doente que caminha debilitado e trôpego é que «a falsa filosofia lhe tira a religião e o fanatismo rouba-lhe a ciência».



publicado por Abdul Cadre às 03:48
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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2004
APROXIMAÇÕES À SABEDORIA ANTIGA

Dizia o grande místico Karl von Eckartshausen que «A verdade absoluta não existe no reino dos fenómenos. Nem sequer nas matemáticas a encontramos, porque as suas regras e princípios estão fundados em certas hipóteses respeitantes à grandeza e à extensão, já por si de carácter fenoménico. Mudem-se os conceitos fundamentais das matemáticas e o sistema inteiro será modificado».


Assim, dizer-se que uma dada ordem de coisas ou de saberes tem quatro, ou nove, ou doze graus, partes, modos ou o que mais se queira é falar-se de critérios quantitativos, de convenções, de codificações, de espírito analítico e nada mais.


O homem, para poder entender os enigmas, os segredos e os mistérios, divide — que é o pressuposto da análise — e estabelece convenções — que é o corolário de todas as sínteses — para que, a partir de um saber codificado e aceite o entendimento recíproco seja possível e as transmissões dos códigos e o método dessa transmissão se estabeleça.


Na administração do saber, nas universidades medievais, usava-se um conjunto de quatro disciplinas — Aritmética, Geometria, Astronomia e Música — que se designava por QUADRIVIUM. Esta base quadrangular requeria, de quem pretendia alcançar a mestria nas artes liberais, a coroa do TRIVIUM, que compreendia a Gramática, a Dialéctica e a Retórica, disciplinas estas que, vistas à luz dos nossos dias, poderíamos chamar de ciências da linguagem, para acrescentarmos que é precisamente a fala, organizada em sistema coerente e simbólico, o que mais nos distingue das espécies animais que habitam connosco este planeta.. Tal culminar em SETE remete-nos necessariamente para a simbólica da construção: uma casa, como a desenhará qualquer criança, é um triângulo sobre um quadrado.


Esta associação do triângulo com o quadrado também podia ser tomada de forma menos prosaica e menos profana se nos lembrássemos que o sagrado tetragrama da cabala aparece gravado no centro de um triângulo, símbolo que, por sua vez, se ostenta no pórtico de muitas igrejas cristãs. É o nome de Deus, que não se pronuncia e apenas se soletra: Iod, He, Vau, .


Quando o Dr. Gerar Encausse, vulgarmente referido pelo seu nome iniciático de Papus nos propôs, no seu Traité élémentaire de Science Occulte, analisar as questões da Pristina Sophia, tendo em atenção as quatro realidades tradicionais — Deus, o Universo, a Natureza e o Homem — certamente que não ilidiu o pressuposto de que a chave mestra da descodificação humana é o triângulo, isto é, o número três. De tal forma não ilidiu que, na mesma obra, declarou que toda a doutrina oculta se pode classificar em três secções fundamentais: os princípios, as leis e os factos.


Quanto a nós, a convenção básica de todo o entendimento tradicional é a triunidade — como é Acima é em baixo — ou, em termos dialécticos: tese, antítese e síntese (mercúrio, enxofre e sal) e representa-se pelo triângulo. Em correspondência com esta convenção, que resulta duma dependência incontornável, todas as escolas esotéricas e iniciáticas, por mais que possam comportar uma grande pluralidade de graus, em boa verdade têm apenas três e não mais do que três, e tudo o mais será espelhismo, necessidades pedagógicas e convenções particulares que se justificam mais na História e na cultura do que na Tradição e nas condições de iniciação.


Voltando ao tetragrama e seguindo o pensamento de Papus, diríamos o seguinte: o Iod, como princípio activo e símbolo da Teogonia, falar-nos-ia de Deus, do todo primordial; o primeiro , como princípio passivo e símbolo da Cosmografia, falar-nos-ia do universo; o Vau, como princípio equilibrante e símbolo da Androgonia, falar-nos-ia de como a relação alquímica Deus-Universo produz o sal, o traço de união que é o Adam Kadmon. Por fim, se quisermos ver representado no segundo o regresso à unidade, ou realização total em todos os planos vamos ter de admitir, realçando o indisfarçável sinal de repetição do Hé, que realizar não é um grau, mas o escopo de todos os graus, e assim voltamos à simplicidade das coisas, propondo-se:


1º Grau do saber. Diz respeito aos FACTOS. Estes correspondem à natureza, ao plano onde o homem tem por veículo animal um corpo de carne. Neste grau, o homem de ideias e ideais é chamado, mas só o discípulo em prova se pode dizer que é escolhido.


2º Grau do saber. Diz respeito às LEIS. Estas correspondem ao universo e exigem do estudante consciência do corpo astral. Por isso lhe chamamos discípulo aceite.


3º Grau do saber. Diz respeito aos PRINCÍPIOS. Estes correspondem a Deus e exigem do estudante a consciência da alma imortal. O discípulo passa a ser um com o Mestre e é tradicional chamar-se-lhe filho do Mestre.


Este tratamento esquemático pode parecer uma tentativa de subverter o entendimento teosófico dos cinco estágios do discipulado, mas afirmamos que não. Segundo o nosso ponto de vista, a razão é esta: a Teosofia fala de um quinto estágio, que seria o de Iniciado... Ora, iniciado não é estudante, ou não é estudante neste plano. Por outro lado, não se pode considerar estágio autêntico e autónomo de discipulado o de «homem de ideias» porque não está na senda; quando estiver, como mais atrás dissemos, será então um discípulo em prova.


Esta é uma aplicação, se se quiser, da navalha de Occam, princípio de busca respeitado em ciência, nomeadamente em Parapsicologia, o qual postula que a teoria explicativa mais simples de um facto ou fenómeno é mais válida do que aquela que introduz complicações desnecessárias


Vendas Novas (Portugal), 29 de Janeiro de 2004


Abdul Cadre frc



publicado por Abdul Cadre às 03:34
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